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17 Jul 2019

Vasco Pinheiro, Arquiteto, Universidade Técnica de Lisboa - Artigo Opinião

A retoma do sector imobiliário e da actividade da indústria da construção, a partir de 2013.

       

Vasco Pinheiro, Arquiteto, Universidade Técnica de Lisboa - ​ Prof. Universitário

A retoma do sector imobiliário e da actividade da indústria da construção, a partir de 2013.

   

A retoma do sector imobiliário e da actividade da indústria da construção, a partir de 2013, foi em larga medida consubstanciada pela reabilitação urbana e, concretamente, pela intervenção em edifícios antigos, pré 1950.

A densidade construtiva da cidade de Lisboa, onde os espaços para novas construções se vai mostrando escasso, a tradição e a riqueza dos núcleos urbanos históricos da cidade, que seduzem aqueles que nos visitam e que escolhem a cidade para sua residência, e, cumulativamente, as mais valias económicas proporcionadas pela regulamentação vigente dirigidas aos programas de reabilitação, contribuíram para uma alteração de paradigma que passou a contemplar uma maior dedicação do sector da construção à obra de reabilitação, comparativamente ao das novas construções.

Observa-se, por estes motivos, o crescimento acentuado de intervenções no edificado mais antigo, muito maior do que até então, conduzindo este à renovação das zonas e bairros históricos da cidade e à consequente reabilitação do seu património.

Porém, a nova convergência para o sector da reabilitação, sendo necessária e benéfica, face à necessidade de recuperar o edificado degradado e devoluto da cidade, trouxe consigo enormes responsabilidades ao sector profissional da arquitectura que, naturalmente, face ao acréscimo de trabalho nesse domínio, obrigou a uma necessária actualização de procedimentos, metodologias e princípios.

Das diversas questões que se colocam a este nível, poderiam referir-se aquelas relacionadas com a contextualização das intervenções, com a reflexão sobre os programas a que são sujeitas, com a pertinência da transformação e das mudanças de uso, com o fachadismo, com os materiais,  técnicas e sistemas construtivos utilizados, ou com a sua adaptação ao paradigma da sustentabilidade quer ambiental, quer construtiva, económica ou social.

Transversal a todas estas preocupações surge, de início, uma questão evidente e de maior relevância que se prende com o necessário e exacto conhecimento do objecto da intervenção. Em termos práticos, o trabalho de reconhecimento do edificado existente constitui um valor acrescentado ao sucesso da intervenção com expressão no procedimento projectual e, consequentemente, no decurso da própria fase de obra.

Efectivamente, a antiguidade dos edifícios que têm sido alvo de intervenção constitui uma enorme dificuldade na obtenção de desenhos de levantamento, que, grande parte das vezes é inexistente. Por outro lado, o conhecimento histórico desses mesmos edifícios é nulo, sendo apenas possível referencia-los, historicamente, em relação aos contextos urbanos e históricos em que se inserem.

Do ponto de vista do projecto, a definição de programas de intervenção eficazes e, sobretudo, adequados aos princípios da salvaguarda do património e da sua identidade passam, numa primeira fase, pelo maior conhecimento das suas características físicas e morfológicas bem como, pelo reconhecimento dos seus valores históricos e artísticos.

Nesta medida, o trabalho de análise e levantamento do edificado mostra-se, mais do que uma simples fase preliminar de trabalho, um procedimento cada vez mais especializado e atento, cuja extensão e rigor são fundamentais ao sucesso do processo de reabilitação.

Com efeito, a reabilitação efectiva do edificado passa por um processo inicial de conhecimento profundo da sua história, da sua forma, linguagem, materiais e método construtivo.

Nesse processo, a sistematização da informação sobre o objecto da intervenção, tantas vezes vista como uma condicionante ao seu desenvolvimento deve, antes de mais, ser vista como um ponto de partida e, ainda mais, como uma alavanca para a sua futura valorização.

Entender a antiguidade da estrutura edificada, conhecer a história, o conhecimento e o legado que se escondem por trás das formas, dos materiais e dos meios anteriormente utilizados constitui um desafio e, ao mesmo tempo uma obrigação e uma necessidade.

A realidade específica do edifício antigo obriga a cuidados igualmente específicos no modo de intervir, estando estes directamente dependentes dos resultados obtidos de um trabalho de levantamento bem executado e rigoroso. Dele resulta a definição ajustada de um programa de intervenção, que salvaguarde a natureza e a identidade do edifício; que proporcione a escolha adequada dos materiais e dos sistemas construtivos a utilizar; que saiba tirar partido das pré-existências e que as saiba integrar na contemporaneidade da intervenção.

Na actual conjuntura técnica e profissional importa pois verificar os meios e os métodos disponíveis para, de um modo sistemático, rápido e, finalmente, eficaz, ser possível organizar todo o conjunto de informações necessárias ao perfeito conhecimento do edifício e ao ampliar das possibilidades de garantir um maior sucesso na intervenção.

Concorrem para este fim meios e dispositivos digitais que começam hoje a ser direccionados para esta especialização da prática arquitectónica como seja o varrimento lazer - lazer scanning - ou a metodologia BIM (Building Information Modeling) como processo evolutivo do sistema CAD, já instalado desde as últimas décadas do passado século na generalidade dos atelier de arquitectura.

O varrimento lazer surgido em meados da década de 60 do século passado começa a ser vulgarizado na prática corrente de levantamento e, sobretudo da restituição, sob a forma gráfica, da estrutura edificada.

Através de uma tecnologia de medição e de digitalização remota, que tem por base a emissão de feixes de lazer dirigidos ao objecto em análise e com a consequente identificação e referenciação de uma nuvem de pontos nele encontrados, produz-se um modelo tridimensional de alta precisão com uma margem de erro mínima que permite, numa fase subsequente, trabalhar o objecto e os seus componentes com elevados resultados.

Apesar dos custos ainda elevados, associados a este processo, face ao equipamento utilizado, a economia de tempo no processo, o rigor e, fundamentalmente, a possibilidade de desmultiplicação do resultado na forma de uma inesgotável base desenhada a duas dimensões, justifica e promove plenamente a sua utilização, tornando-a recomendável.

Por outro lado, a associação desta metodologia a uma prática metodológica e de desenho assente no moderno sistema BIM permite complementar toda a informação registada numa base de dados que muito facilita a prática do projecto.

Efectivamente, se o tradicional sistema CAD (Computer Aided Design) constituía já uma ferramenta de alto desempenho na produção projectual, o novo sistema BIM exponencia essa mesma prática introduzindo no desenho a valência da parametrização que transforma cada um dos seus sinais e elementos gráficos (ponto, linha, plano) num conteúdo específico da futura construção (parede, cobertura, porta, janela, material, etc.).

Acresce a esta mais valia, o facto da base de desenho passar de um registo bidimensional para outro tridimensional, com todos os benefícios que daí advêm ao melhor entendimento e leitura do projecto por parte dos donos de obra. Também através desta plataforma, a possibilidade de articulação simultânea que promove com os demais intervenientes técnicos, nomeadamente com a vertente da engenharia e especialidades, permite eliminar eventuais conflitos e contribuir para um maior controle  e previsão de custos.

No domínio específico da reabilitação de edifícios as ferramentas proporcionadas pela tecnologia digital constituem hoje uma mais valia relativamente à qual é ainda necessário investir. Porém, é legítimo afirmar que existem hoje mais e melhores meios que permitem abordar o edificado antigo e que contribuem para um maior sucesso da sua desejável reabilitação.

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