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A Wikipédia, fonte hegemónica, mas nesta caso fiável, do saber moderno, define «Casa (do latim casa), residência (do latim residentia), morada ou moradia [como], no seu sentido mais comum, um conjunto de paredes e teto construídos pelo ser humano com a finalidade de constituir um espaço de habitação para um indivíduo ou conjunto de indivíduos para que estejam protegidos dos fenómenos naturais exteriores (como a chuva, o vento, o calor e o frio etc.)». Essa proteção traduz-se pela noção de conforto, de bem-estar, o que, paradoxalmente, e na esmagadora maioria dos fogos existentes em Portugal, é uma mais-valia provavelmente improvável.

Uma corrente arquitetónica, bem-intencionada, mas com muito pouco impacto, procurou colmatar estas fragilidades estruturais. Apesar de os custos adicionais não trazerem reflexos significativos para a construção, previa-se, no entanto, um agravamento de cerca de 4% para o dono de obra. Era a arquitetura bioclimática, que se focava na integração no meio ambiente do homem, aplicando de maneira mais eficaz os sistemas construtivos e desenvolvendo tecnologias para aprimorar o uso de recursos naturais.
Os irmãos Victor e Aladar Olgyay haviam sido os precursores dessas discussões e, como tal, os responsáveis pelas primeiras referências nesta área, referências essas que constam dos manuais Design with Climate e Architecture and Climate. Nesse contexto, eles criaram o termo bioclimatism.

Desta corrente dos anos 60-70, nasceram métodos construtivos atuais. A perspetiva era, contudo, menos tecnológica: a arquitetura bioclimática buscava o benefício de fontes naturais para o aquecimento e isolamento térmico. Recorreu-se, por exemplo, ao aproveitamento solar para o aquecimento do interior das habitações, dimensionando corretamente os vãos envidraçados, utilizando materiais interiores absorvedores de calor, aplicando paredes de Trombe[1] e aproveitando os inertes naturais locais (terra) para cobrir as fachadas mais vulneráveis termicamente (orientação a Norte, edifícios térreos).

A evolução da arquitetura bioclimática reflete-se, hoje em dia, na preocupação com os consumos energéticos. Surgem propostas de isolamento térmico cada vez mais satisfatórias, sendo atualmente a solução mais corrente a aplicação do sistema ETICS[2] e métodos de isolamentos hidrófugos mais eficazes.

Um dos aspetos muito relevantes no conforto térmico é a impermeabilização dos edifícios: a infiltração, a retenção de água, a evaporação e deslocação dos vapores para os materiais mais frios (lajes e paredes), bem como o fenómeno da evaporação provocam um ambiente mais agreste, propício ao arrefecimento do ar (resfriamento evaporativo).
No caso de aplicação de isolamentos térmicos, é consequentemente necessário ter sempre em conta a condutibilidade térmica dos materiais e permeabilidade ao vapor.

Só fará sentido falar de habitação se a construção do edifício cumprir essas premissas. Aí ter-se-á o conforto. A casa. Antes da compra do imóvel, a verificação acurada de todos estes aspetos e a análise consciente das novas propostas construtivas do mercado deverá ser uma exigência.

Não se faz uma casa saudável num edifício doente.

[1] Parede de grande inércia térmica, com grande capacidade para armazenar calor. Para além da parede existe uma caixa-de-ar e um vidro, para que se forme um espaço altamente aquecido (através da radiação solar que atinge o vidro) aumentando assim a quantidade de calor a ser armazenada pela parede. Esta energia acumulada é depois radiada diretamente para o interior do edifício a partir da outra face da parede. Para que este aquecimento passivo funcione em pleno, a parte que constitui o envidraçado do conjunto, terá de ser orientado a sul. Importa frisar, que este sistema só funciona para a estação fria (aquecimento) sendo obrigatoriamente descativado na estação quente, através de palas de sombreamento que impeçam a radiação solar de atingir o envidraçado, ou através de sombreamentos ou persianas exteriores, que tapem o vidro, completamente.
[2] O termo ETICS corresponde a “External Thermal Insulation Composite System” o que, traduzido para português, significa “Sistema de Isolamento Térmico pelo Exterior”.
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