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Como sabemos há construções e construções, que vão de um simples muro, que pode demorar muito pouco tempo a fazer, mesmo sendo muito extenso, como o muro de Berlim, que foi construído, sem aviso prévio, na madrugada de 13 de Agosto de 1961, separando dramaticamente habitantes de uma mesma cidade, incluindo famílias, durante dezenas de anos, até construções que demoram séculos a chegar ao acabamento final, permitindo dar origem a primores arquitectónicos. Estou a pensar, especialmente, na Catedral de Notre Dame (Nossa Senhora) de Paris que foi construída de 1163 a 1345, e que nestes dias esteve nas bocas do mundo devido a um incêndio que durante horas parecia demolidor. Esta catedral é um dos expoentes do estilo gótico, que é considerado verdadeiramente representativo da religiosidade medieval. O que dignifica muito a arquitectura pois a própria construção consegue “exprimir” uma religiosidade.

Confesso que nunca me interessei muito pelas igrejas de França. Assumo o preconceito pois tenho consciência da secularização brutal deste país e acabo sempre por pensar que, neste caso, Notre Dame não é propriamente uma Catedral, mas um museu constituído por uma catedral. Sendo um dos locais mais visitados do mundo, com cerca de 14 milhões de visitantes por ano, sou levado a pressupor que as pessoas, na sua grande maioria, vão lá ver arte e não um local de culto religioso. Não posso deixar de pensar que este incêndio induz a uma chamada de atenção para muitos, em especial para os franceses. O que vão de facto agora reconstruir? Telhados, colunas, estátuas, imagens, pinturas, etc… ou precisam de reconstruir algo mais?

O que é que tem mesmo de ser reconstruído em primeiro lugar? A arte religiosa está ao serviço da religião, neste caso, cristã. Não faz sentido arte cristã sem haver cristianismo. Passa a ser apenas uma estética do sagrado ao serviço de uma certa maneira culta de, apenas, “consumir”.

Encontro um exemplo parecido em Portugal: a nossa Igreja mais célebre é, talvez, o mosteiro do Jerónimos, aliás mosteiro de Santa Maria de Belém, e confesso que só depois da visita de Bento XVI a esse local em 2010 é que, em mim, a ideia de estar num simples monumento, embora extraordinário, passou para segundo plano.

Mas voltando ao incêndio em Notre Dame, ele fez despertar em mim uma questão: o que somos nós, seres humanos? somos apenas “consumidores”, mesmo que seja de monumentos extraordinários, ou somos algo mais? Acho que estamos no tempo de procurar este “algo mais”, pois de outro modo talvez sejamos pasto de “incêndios” espirituais e materiais ainda mais dramáticos.
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